segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Wagner Pinheiro e a reinvenção dos Correios

Em entrevista exclusiva, o economista Wagner Pinheiro de Oliveira conta como está gerenciando as vantagens e restrições próprias de uma estatal para levar a ECT a competir na entrega de encomendas no mercado internacional e para garantir a qualidade do atendimento à demanda interna, que cresce com o poder aquisitivo da população.

Os Correios, donos de um faturamento anual de R$ 14,6 bilhões (em 2011), completam 350 anos em 2013 com dois grandes desafios: atender à crescente demanda de envio de encomendas resultante do aumento do e-commerce e enfrentar a concorrência cada vez maior de empresas multinacionais de logística, muitas delas derivadas dos correios de seus países de origem tornando-se, assim, uma empresa de entrega de  encomendas com atuação no exterior. 

Os dois desafios estão sendo liderados por Wagner Pinheiro de Oliveira, presidente da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT ) desde 2010. Economista com forte atuação na área pública, dirigiu durante oito anos a Petros, o poderoso fundo de pensão da Petrobras, que é um dos maiores e mais influentes investidores institucionais do Brasil, até ser convocado pela presidente Dilma Rousseff para praticamente reinventar os Correios rumo à competitividade, à qualidade e à transparência.

Nesta entrevista concedida ao diretor da HSM José Salibi Neto, Pinheiro fala sobre como a empresa está se preparando para essa empreitada, atuando especialmente na gestão de pessoas.


Saiba mais sobre Wagner Pinheiro de Oliveira.


Economista formado pela Unicamp, com especialização em gestão financeira pela FGV-EAESP, Wagner Pinheiro de Oliveira começou sua carreira como analista de investimentos do antigo Banespa. Ligado ao Partido dos Trabalhadores, foi assessor para a área financeira de sua bancada na Assembleia Legislativa de São Paulo e também diretor da Federação dos Bancários. Experiente na gestão de previdência privada, foi diretor-financeiro do Banesprev, fundo de pensão do antigo Banespa, e presidiu o fundo de pensão Petros, ligado à Petrobras. Indagado sobre sua visão de gestão e liderança, Pinheiro diz que inclui a busca da qualidade operacional, considera o planejamento estratégico obrigatório —“toda empresa precisa ter foco e objetivos”— e passa por ser muito exigente em relação a execução e resultados, porém nunca deixando de ouvir as pessoas.



Qual foi sua missão estratégica nesse novo contexto da ECT, de 2010 para cá?

A presidente Dilma nos deu uma tarefa institucional bastante grande, que é a necessidade de a empresa se revitalizar, voltar a se reinventar, como se reinventa há 350 anos, e enfrentar esse mercado concorrencial enorme. Tudo isso sem deixar de ser uma grande empresa de encomendas, continuando a cumprir nosso papel de serviços postais tradicionais, integradora de um país do tamanho do Brasil. E ainda temos um plano de atuar fora do Brasil num futuro próximo. No mercado tradicional de serviços postais, sempre atuamos fora do Brasil, porque sempre tivemos parceria com correios do mundo todo. As pessoas enviam as coisas daqui e elas chegam a qualquer lugar do planeta. Agora, estamos nos tornando uma empresa de encomendas expressas, para atender o comércio eletrônico. São pacotes pequenos e médios, coisas de até 30 quilos.

E como isso está sendo encaminhado?

Nós nos dedicamos, no ano passado, à construção e aprovação de um plano estratégico, “Correios 2020”, na qual envolvemos trabalhadores, gestores e conselho de administração. Agora temos um foco: colocar nossa empresa em condições de igualdade de competição com os grandes operadores multinacionais do setor postal e de logística, no Brasil e fora, trazendo a gestão corporativa dos Correios para os dias de hoje. Temos de usar as ferramentas da Lei das S.A., que é uma lei moderna, e implementar as ferramentas que os investidores institucionais costumam exigir das empresas de capital aberto. Com a mudança do estatuto, criamos um comitê de auditoria e alteramos também a presidência do conselho, que passou a ser indicada pelo ministro das Comunicações. É uma prática de boa gestão corporativa.


Marca no esporte, da base ao profissional

Com o patrocínio de esportes como natação, tênis e futebol de salão, os Correios estão levando sua marca para o exterior antes mesmo de começar sua internacionalização. Mais estratégico, contudo, o apoio da empresa às confederações brasileiras dessas modalidades tem representado “um avanço no relacionamento com a sociedade brasileira, no que diz respeito à ação de responsabilidade social”, segundo Wagner Pinheiro. É que o patrocínio vai além de colocar a marca em eventos internacionais e no uniforme dos atletas; promove a formação de jovens carentes nos três esportes. Os Correios realizam ainda um campeonato interno nacional de tênis, com o apoio técnico da Confederação Brasileira de Tênis, para os funcionários e seus filhos. “Nós temos escolinhas de formação de tênis no Brasil todo e também um campeonato interno de natação. E posso dizer que tem um rapaz, filho de uma funcionária nossa dos Correios do Rio de Janeiro, que tem 16 anos e já faz um tempo igual ao do Cesar Cielo nessa idade. Ele já tem o potencial de um campeão.” Segundo Pinheiro, esse formato de patrocínio que mescla divulgação da marca e incentivo às categorias de base tem se mostrado o mais acertado.

Voltando ao comércio eletrônico, quanto essa área já pesa na operação dos Correios? Foram feitas mudanças internas na empresa para se adaptar a isso?

Posso dizer que temos sentido muito o reflexo do comércio eletrônico internacional. Há três anos recebíamos, de modo centralizado, 15 mil pequenos pacotes no nosso Centro de Tratamento, que fica em Curitiba, lá trabalhamos em parceria com a Receita Federal, com a Anvisa, esses órgãos públicos de fiscalização de importação. Hoje são 50 mil pacotes. Nós temos focado nossa estratégia na melhoria do tratamento dessa carga, da infraestrutura, de nossos centros de logística e triagem. Isso vem crescendo cada vez mais, enquanto vêm caindo aos poucos as cartas, incluindo essas correspondências que recebemos de instituições financeiras, o que chamamos de “Franqueamento Autorizado dos Correios (FAC )”, que saem direto dos bancos e são entregues no nosso centro de tratamento de cartas.


Esse mercado de encomendas é mais exigente?

O mercado consumidor como um todo é exigente e vale lembrar que ele cresceu enormemente em pouco tempo: 40 milhões de pessoas, das classes C e D, foram incluídas nele. E não se trata só do comércio eletrônico, pois muitas encomendas são postadas direto nas agências. Muitos clientes corporativos usam nossa estrutura para entregar suas mercadorias. Para lidar com isso, nosso foco tem sido o investimento em pessoas, na automatização, na mecanização, na infraestrutura como um todo para a entrega de encomendas. Nos últimos 18 meses, a empresa investiu R$ 100 milhões em mais de 700 obras de construção, reforma e ampliação de unidades operacionais, administrativas e de atendimento. Também adquiriu mais de 6 mil veículos, entre motocicletas, furgões e caminhões, e quase 2 mil equipamentos.


Os Correios contam hoje com 11.968 agências como esta no Brasil, sendo 6.387 próprias, 1.370 franqueadas e 4.211 comunitárias. Tal capilaridade constitui uma vantagem competitiva significativa sobre a concorrência, ainda mais se for considerada sua diversidade de ofertas, que inclui, por exemplo, serviços do Banco do Povo em 6.195 delas

Diante da ebulição do mercado interno, a internacionalização está em pauta?


Sim! Hoje não há como não pensar também globalmente. Já atuamos em 192 países no mercado postal tradicional, em uma parceria para o tráfego internacional de correspondência, mas, em termos de encomendas expressas, não temos nenhuma atuação ainda. Queremos ter, e nosso foco inicial são os países com que já temos algum nível de tráfego comercial, especialmente naqueles onde há mais brasileiros estou falando de América do Sul, nosso maior parceiro por conta do Mercosul, e também de Estados Unidos, Portugal e Japão, além dos demais países de língua portuguesa. Por enquanto, ainda não definimos uma forma de atuação; temos uma equipe para analisar o melhor momento e a melhor maneira de operar fora do Brasil. Temos contado também com o apoio institucional da APEX e discutido com o BNDES, para nos ajudar a definir tudo isso. Acredito que as ações devem começar com escritórios de representação no exterior, com parcerias com empresas locais ou até mesmo com a aquisição de pequenas empresas de transporte de carga ou de courier.



Os players do setor estão investindo na maior capacitação dos funcionários. Como ficam os Correios, com mais de 115 mil funcionários, que têm estabilidade no emprego e um histórico recente de greves?

Acabamos de receber autorização do Ministério do Planejamento para contratar mais 9.904 trabalhadores, ou seja, um incremento de quase 10% na força de trabalho. O que aconteceu é que, junto com o crescimento da economia brasileira e da inclusão de tantos novos consumidores, as cidades brasileiras cresceram horizontalmente. Com a urbanização e programas como o “Minha Casa, Minha Vida”, surgiram novos distritos, o que ampliou a necessidade de carteiros para atender um público que já existia, mas ainda não consumia nossos serviços. E, para sobreviver, nossa empresa depende essencialmente de mão de obra.


Então, a estratégia, no caso dos Correios, está intimamente ligada às pessoas? 

Muitas empresas dizem que as pessoas são o coração da estratégia, mas costuma ser mais discurso do que prática... Nossa estratégia é a de qualificar nossos trabalhadores para que eles atendam cada vez melhor a população e também para que se sintam satisfeitos, não só com o salário, mas com um ambiente favorável de trabalho. Estamos ainda aparelhando-os para que atendam às necessidades do mundo de hoje. Esperamos que, no início do próximo ano, todos os nossos carteiros que entregam SEDEX estejam usando smartphones. A ideia é que eles ganhem algo entre 30 minutos e uma hora de trabalho e que o cliente saiba exatamente quando vai receber, podendo, quem sabe, até entrar em contato com o entregador no caso de algum desencontro. O que quero dizer com isso é que estamos trazendo as ferramentas de informática para que nossos funcionários estejam mais preparados.


Qual é o papel da universidade corporativa dos Correios nesse processo?

É importantíssimo! Nosso projeto de médio prazo é oferecer mais bolsas de estudo, principalmente com o ensino a distância, sempre com vistas a melhorar a formação profissional do carteiro, do operador de triagem, do atendente comercial na agência, dando-lhes perspectiva de ascensão profissional na empresa e também a convicção de que, com aquela formação, eles estão se preparando para o mercado de trabalho seja onde for. A gente quer que essas pessoas não fiquem paradas; devem ter uma ascensão contínua na empresa. Neste segundo semestre, vamos oferecer 2,1 mil bolsas de estudo, de graduação e pós-graduação. Ou seja, em relação a nossos 115 mil trabalhadores, significa quase 2% com bolsas de estudo. Sem contar as mil que já oferecemos no primeiro semestre.


Uma curiosidade: os Correios haviam anunciado que se envolveriam no trem-bala. Isso se mantém?

Faz parte dos nossos projetos. Nós analisamos que tipo de clientes poderíamos ser, porque está incluída a possibilidade de transporte de carga entre Rio e São Paulo, principalmente de madrugada. A viagem deve ser de duas horas e meia, três horas, no máximo, e hoje nosso caminhão demora, na melhor das hipóteses, sete horas. Sem contar o impacto ambiental. A viagem vai demorar a metade do tempo, com um risco menor de acidentes, um impacto ambiental menor, justamente na rota com maior fluxo de encomendas do Brasil, que é entre Rio e São Paulo. Em nossa análise, chegamos à conclusão de que valeria a pena, em certas condições, sermos sócios em uma porcentagem pequena, pois entendemos que isso nos daria uma vantagem estratégica no transporte de carga.


No universo da sustentabilidade

A reinvenção atual dos Correios passa também por iniciativas na área da sustentabilidade. Segundo Wagner Pinheiro, a empresa assinou no primeiro semestre um termo de cooperação com a International Post Corporation, uma associação privada dos maiores correios do mundo. O termo prevê a redução em 20% da emissão de CO2 na atmosfera até 2020, em relação aos valores de 2008. Alguns projetos já estão sendo testados, como um contêiner elétrico com rodas para calçadões, usado atualmente em Curitiba e Porto Alegre. O contêiner carrega uma quantidade muito maior de encomendas do que um carteiro poderia carregar e funciona com um motor elétrico. A empresa também está testando dois projetos de carro elétrico, um em parceria com a CPFL em Campinas e outro com Itaipu. Outro projeto é o EcoPostal, que prevê a doação das malas e malotes para cooperativas que os transformem em sandálias, bolsas, tapetes e almofadas, evitando a queima dessa lona e a emissão de CO2 na atmosfera.

Um comentário:

  1. As ponderações abstratas são muito bonitas de serem faladas,porém quando estão totalmente dissociadas da realidade só servem para iludir a opinião pública e passar uma falsa impressão de que toda essa competência e modernidade realmente existem e não são mero delírio de mais um tecnocrata a serviço do mercado,sem nenhum compromisso com os verdadeiros donos dos correios, a sociedade, o povo brasileiro.

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